Poemas
 

Todos os textos deste quadro, são © José António Gonçalves

 

TODOS OS DIAS VEJO-TE PARTIR

todos os dias vejo-te partir
airosamente num silêncio assustador
do parapeito da minha janela
de onde a vista me sai sempre nas asas
dos pássaros que passam junto às persianas
e é como se me levasses contigo

nada me obriga a contemplar-te no teu esmero
de barco em navegação ordenada e destino traçado
nem sequer a história que encheu baús de cartas
nas experiências passadas dos meus entes queridos
no frio e no calor de outros infernos
e paraísos

mas se te pressinto chegar corro a receber-te nos olhos
a distinguir as tuas formas e cores nos contrastes
da tua continuamente diferente formosura
e lá fico a ver-te até me doer o coração com o peso
da saudade de quem nem sequer te chegou a conhecer
mas observa-te desde os confins do seu primeiro dia
de vida com água salgada no lugar
onde viaja o sangue

dantes despedias-te com um apito ensurdecedor
gritando o abandono das amarras presas ao cais da ilha
e seguias nas mãos da bruma em linha recta numa fuga
direitinha ao colo do sol naufragando
na púrpura dos ocasos

por aqui sou como as flores
essas flores que amam o olor da terra
e apenas sobrevivem com os cuidados
do ar do fogo
e do aquático movimento das nascentes
mas flores prisoneiras das raízes
no barro cozido
dos vasos

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MEMÓRIAS DA ILHA

1

Traz o algoz da cerca e rasga
o abismo, a cavidade basáltica
onde se acolhe o sal e a água
fugindo dos raios do sol tardio
e corta de vez o ar com o gume
da foice suja de cuidar das árvores
e aquece-me, devagar, na fogueira
onde só a distância é quem acende
a viagem e onde depões, com gestos
vestidos de azul, a chama do lume
usado para apelar ao acenar dos barcos.

2

São os viageiros quem mais ama a terra
e distribui sorrisos e tostões para café
e as mulheres limpam as mãos na saia,
correm para o coração verde da estrada
e espantam-se com as cores do guarda-chuva
e encantam-se com o cheiro dos cachimbos,
dando em troca o organdi branco do bordado
e o orvalho fresco num maduro bago de uva
e vão dizendo, cada vez mais alto, «muito obrigado»
e guardando com tristeza a resposta «de nada».

3

Tudo lhes parecia tão mágico e fortuito
(como cair numa passadeira de veludo)
que levavam a lembrança ao sono:
como «de nada» se o seu «nada» era o «muito»
ou, do que tinham para a vida, «quase tudo»?
Mesmo esse nada tinha dono.

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CALOU-SE O FOGO

calou-se o fogo dos canhões da noite
chegada a última pólvora pirotécnica ao colo
das nuvens brancas como as asas celestiais
onde descansam os anjos das suas longas
jornadas terrenas

não há mais foguetes colorindo o tecto da cidade
nem se escutam os estrondos da trovoada humana
e o silêncio é enganador em todo o lado onde alguém
ainda se mexe em direcção às pedras gastas
que alimentam de polimento
as curvas velhas dos caminhos

o fogo calou-se e o povo regressa a casa
deixando para trás a esperança e a saudade
de uma lágrima ainda não chorada
ignorando o trémulo movimento de uma asa
que ainda ficou no lugar escondida nas sombras
desconhecidas
da calçada

de repente todos os homens olham-se perdidos
no escuro
rodeados pelo dever de estar de pé
cada vez mais sozinhos
procurando outros sonhos outras terras outros lares
onde jamais se sintam
vencidos

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A MULHER NO SEU LABIRINTO


(para a Marina Rodrigues,
Miss Madeira, Miss Portugal
)

é a mulher com seu labirinto de fogo
e um pedaço de abismo de mar nos olhos
fixando a luz por cima dos ombros das montanhas
uma libélua esvoaçante em linha recta no firmamento
com um barco percorrendo as ondas dos seus cabelos
sem olhar para o ar na voragem dos solstícios
presa à terra insular onde deslisa os pés sem levantar
a poeira das horas e a quietude dos dias

é a mulher
com seu labirinto de fogo

as suas mãos são quem provoca os incêndios
enchendo de água límpida as cisternas dos homens
e de sussurros a penumbra da noite dos tempos
e segue sempre no encalce de metas distantes
como se levasse asas no corpo e um íman a atraísse
para não se deter nem por breves instantes
nos canteiros das flores eternas

quem saberá onde tudo começou um dia
aquela pose deslumbrante de garça e a cor das borboletas
o arrepio na pele suavizado pelo sol da ilha
o giro da rega nocturna nos braços das florestas
o muro de pedra vulcânica segurando a casa do caruncho
a vinha segregando as uvas no silêncio das latadas
o movimento lento da chama do lampadário
e quem responderá ao apelo do sino a oeste da voz
que se faz ouvir nas ruas da cidade
onde nasce o funcho?

é a mulher com seu labirinto
de fogo e um bando de pássaros em demanda
migratória um sinal de crepúsculo nas sombras
e um destino de ave que abandona o ninho a miragem
de um casulo de campanário para iniciar no vento
nova viagem numa jangada de madeira e liame
deixando na espuma da ribeira brava o sonho de navegar 
para onde houver um brado que a chame

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CAÍRAM AS FLORES

(para a Cissa Oliveira)

caíram as flores do muro verde
e os amigos parecem-me mais distantes
esbatidos nas sombras suicidas dos crepúsculos
no lugar onde os pássaros desaparecem
no final das suas migrações instintivas

a rua mudou com novas cores o sol
cobrindo as pedras vocacionadas para a cinza
do vulcão extinto os troncos das árvores húmidas
ainda banhadas pelo orvalho da primavera as telhas
vermelhas do casario amando as encostas dos montes
e os brancos das toalhas e dos lençóis a corar
nas tardes de todos os dias

alguém anotou com rabiscos rápidos na alma
como algo mudou com a queda das flores
no muro verde da ilha

eu desligo-me de tudo vou para o miradouro
e fico horas olhando para os barcos partindo em fila
ignorando o destino de quem fica a ânsia de seguir
dentro do seu tejadilho no calor das caldeiras
do tempo em que se chamavam vapores
e lembro
como eram tantos os homens e mulheres que iam
de olhar baixo e lenço acenando para o cais
convencidos de que zarpavam em janeiro
para regressarem num dezembro
que era o amanhã do nunca mais

é verdade
alguma coisa mudou na ilha
e só ontem dei por isso
o muro está diferente
com a queda das flores
os barcos já não são vapores
os emigrantes desistiram da viagem
e eu fico por aqui no miradouro
como se fosse outro no centro
do feitiço duradouro e insistente
que habita esta paisagem

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ECOS DE SOLIDÃO

começaram a soprar os ecos
da solidão no âmago da minha poesia
cerrando algumas portas umas frestas
todas as janelas e uns buracos no tecto
onde ouço o cantar da aldeia distante
do poema desfeito ao sol
do meio-dia

vejo-a chegar de mansinho com as flechas
de sombreado abandono em riste
e eu defendo-me esticando o arco a mente
a luz que anda pelas galerias do chão que piso
nos olhos dos animais da terra e do ar
e penitencio-me
por toda essa poeira inacamada na alma
e ignoro-me retraio-me
triste

todos os jardins cheiram-me de súbito
a folhas molhadas de inverno
a copas de árvore alagadas de chuva esquecida
a avencas tardias a caminhos perdidos nas charnecas
e distraidamente prometo-me que irei voltar
à liça do poema sempre em movimento ao sabor
da uva ao amor pela tinta e pelo papel
por um destes dias


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